De Carne e Concreto - Uma Instalação Coreográfica é um convite para entrar nas questões da condição urbana, do corpo e da cidade pela materialidade das coisas e pelas naturezas indissociáveis do individual e o coletivo, do espaço e o tempo, do corpo e a mente. A simplicidade e a precariedade são alternativas para escapar da espetacularização da arte e da vida e revelar as essências. O trabalho com as sensações é uma reação à insensibilização e a hierarquização da visão sob os outros sentidos. A crueza vem do desejo de tirar tudo aquilo que é supérfluo, que media ou maquia uma experiência para que a percepção reencontre o que ficou invisível pelas convenções e pela manipulação dos desejos.

Esta criação em dança contemporânea da Anti Status Quo Companhia de Dança parte da investigação sobre a relação do corpo com a cidade e foi apresentada ao público no final do ano de 2014 em Brasília,na Galeria Athos Bulcão, anexo do Teatro Nacional.

A obra é formada por duas propostas artísticas que se convergem. A “Exposição-Instalação” que ficou aberta à visitação pública durante o dia como uma exposição e presença virtual dos bailarinos, e o “Espetáculo- instalação” que foi apresentado com a presença física dos bailarinos à noite no mesmo local. Ambas podem ser apreciadas separadamente como obras distintas, como, também, como partes complementares.

As duas propostas artísticas carregam no nome a expressão Instalação em uma referência a um tipo de operação artística do campo das artes visuais contemporâneas onde o espaço é parte constituinte da obra. Na Instalação, o artista faz alterações a partir de uma estrutura espacial dada, literalmente instalando elementos escultóricos, imagéticos, se apropriando de um espaço já existente para construir a obra.

A ideia de fazer “De Carne e Concreto” como uma instalação coreográfica veio como uma necessidade por estratégias compositivas para a dança que saíssem do campo da representação e também pela especificidade da abordagem do tema. A busca foi por criar uma experiência estética para o público que se aproximasse mais do que realmente vivenciamos e percebemos quando experimentamos o espaço da cidade com nossos corpos. Para isso era necessário uma abordagem mais sensória e cognoscitiva, menos imagética e ilustrativa sobre a relação do corpo com a cidade.

O espaço na Instalação é um elemento vivo que propõe interação, criando um campo múltiplo de interesses e, por isso, pode proporcionar ao público uma experiência estética de imersão que contempla a complexidade sensorial, psíquica e intelectual de um indivíduo. Além da visão, existem outras vias de absorção do conteúdo, como a sinestésica e a háptica.

No trabalho coreográfico do Espetáculo-instalação, as apropriações, ajustes e transformações que acontecem no diálogo da coreografia e do corpo com o espaço habitado simultaneamente pelo público e pelos bailarinos potencializa a obra como uma vivência, como uma experiência. Intencionalmente público e performers se confundem. O corpo do público também participa ativamente na construção da multiplicidade dos sentidos. Há uma riqueza de sensações que são experimentadas pelo público que podem ser correlacionadas com o corpo interagindo no cotidiano na configuração espacial da cidade, em vários níveis da percepção.

A Exposição-Instalação é composta por vestígios da apresentação do Espetáculo- Instalação, a partir das marcas da presença e ações dos bailarinos, dos rastros que o corpo deixou no espaço com a coreografia. Os bailarinos estão presentes virtualmente nos ambientes construídos com vídeos instalações por meio de projeções de videodanças, videocenários e foto montagens. A galeria é coreografada também por elementos escultóricos e instalações sonoras criando um ambiente de imersão sensória.


A pesquisa de criação

De Carne e Concreto – Uma Instalação coreográfica é um desdobramento da pesquisa sobre a relação do corpo com a cidade iniciada em 2006 com a criação do espetáculo sobre Brasília, “Cidade em Plano”, que também resultou no videodança piloto “De Carne e Pedra‐Cidade em Plano” (2007), no livro “Arqueologia de um Processo Criativo – Um Livro Coreográfico” escrito pela coreógrafa Luciana Lara (2010) e no projeto de intervenções urbanas chamado “Jamais seremos os mesmos” iniciada em 2007.

As reflexões têm sido desenvolvidas a partir de preceitos em que a cidade pode ser considerada a manifestação concreta do imaginário e dos desejos humanos que revelam os paradoxos de nossa cultura. O espaço urbano, nesta forma de pensar, é idealizado mas também construído pelo seu uso e a percepção que temos dele, e em retroação é formador de como percebemos e como construímos nossos modos de ser e de nos relacionarmos.

No primeiro trabalho “Cidade em Plano”, a pesquisa do grupo se voltou para a especificidade da relação do corpo com a cidade de Brasília. Em De Carne e Concreto, o foco foi a experiência de viver em grandes cidades, mais especificamente, a condição humana urbana. A investigação levantou questões sobre a relação com o espaço urbano e sobre a convivência em grupo, em sociedade, colocando a coletividade no centro da reflexão e da abordagem coreográfica.

O trabalho de construção dramatúrgica e coreográfica foi realizado em colaboração entre a direção e bailarinos e teve a participação de três artistas da dança nacional que realizaram Oficinas residências durante o processo criativo e de ensaios (Para ver a ficha técnica completa deste trabalho clique em Quem somos no Menu).